Cristina Boner

Com espírito de pioneira, verdadeira desbravadora, Cristina Boner teve provedor de internet, foi parceira premiada de Bill Gates e trouxe o indiano Ratan Tata para atuar no Brasil. Agora quer levar sua TBA para a Bolsa

Tem gente que está tão acostumada a ser bem sucedida que nem conta com a possibilidade de algo não dar certo; ou,talvez,esteja tão segura sobre seus objetivos que é capaz de se antecipar aos obstáculos e transformá-los em trampolins. Assim é Cristina Boner, a empresária idealizadora do grupo TBA,que atua na área de serviços de TI e no ano passa- do faturou US$ 100 milhões. Antes disso, porém, foi parceira de Bill Gates na comercialização de produtos da Microsoft e a escolhida por Ratan Tata para fazer uma joint venture que marcou a entrada do milionário grupo indiano no mercado brasileiro. Na verdade,essas associações foram atalhos para ela conseguir a experiência que queria.

Agora seu foco está voltado para a bolsa,onde pretende ingressar em breve. Mãe de três mulheres e avó de três meninos, Cristina, nascida em Ribeirão Preto (SP), apaixonou-se por Brasília,e de seu escritório,em um arrojado prédio pro- jetado por Ruy Ohtake,ela pode ver toda a estrutura do poder da capital federal. Quando não está trabalhando na TBA,Cristina se ocupa com a associação de mulheres empresárias de Brasília ou com seu sítio, nos arredores da cidade, onde ela plantou 22 mil pés de mogno.“Em dez anos eles serão cortados e estarão valendo US$ 2 mil o m3”, diz ela, e conclui dizendo que vai plantar também 50 mil pés de teka,uma árvore indiana. Poderosa em Brasília, Cristina diz que tem poucas lembranças de Ribeirão Preto. Mas uma é muito forte, a da irmã Agda,“de pele branca e inesquecíveis olhos azuis. Ela acreditava em mim. Quando soube que eu teria de deixar o colégio de freiras e ir para a escola pública, ofereceu-me uma bolsa de estudos integral”.Os pais de Cristina, no entanto, recusaram a oferta — tinham outros filhos e não acharam justo que só um tivesse essa oportunidade. Mas nem deu tempo para Cristina se rebelar, pois seu pai conseguiu uma colocação na capital federal e a família deixou São Paulo. Mais tarde, estudante de administração, ao conseguir um estágio no Serpro, descobriu que era aquele trabalho que a faria feliz.

Largou a faculdade e foi fazer curso de processamento de dados. No ano seguinte já dava aula na PUC, mas o que ela queria mesmo era abrir seu próprio negócio. Em 1991 foi à Fenasoft,em São Paulo,à procura de um sócio capitalista que a ajudasse a erguer sua empresa. Achou, e em 1992,junto com dois alunos,criou a Tabra – Tecnologia Avançada Brasileira.

“Estávamos instalados em um porão que às vezes inundava, por causa de problemas no encanamento. Até 1995 ficamos naquelas salinhas asfixiantes e úmidas.” Mas, como uma prova de que a persistência compensa, naquele ano acertaram com a Microsoft uma parceria para exclusividade na distribuição dos produtos da marca em Brasília. Por cinco anos. Foi um sucesso; vendeu tanto que recebeu um prêmio das mãos de Bill Gates e elogios de Steve Ballmer.

Em 1998 iniciou sua operação como provedor de internet, e em dois anos tinha 20 mil assinantes e era o maior provedor da região Centro–Oeste. Era um sucesso. Mas começou a sentir que o vento estava mudando e que não cresceria se limitasse suas ações ao software e ao hardware.“Precisávamos entrar na inteligência,providenciar soluções para as empresas e avançar nessa prestação de serviços.”Para investir nessa área,vendeu a divisão que operava o provedor. Foi um clamor. Afinal,era um excelente negócio. Mas foi exatamente por isso que ela se desfez do negócio, por muito dinheiro, que investiu rapidamente no novo foco. Capitalizada, começou sua busca por um parceiro para negócios em TI. Entre as empresas selecionadas, dez estavam na Índia. Mas com Ratan Tata houve perfeita sinergia. O grupo indiano buscava formas de entrar na América Latina, e em muitos países entrou via aquisição. No Brasil, a TCS – Tata Consultancy Services entrou via parceria com a TBA. Com 51% nas mãos dos indianos nasceu em 2002 a TCS Brasil, quando o setor de outsourcing ainda estava engatinhando no país. Para Cristina, essa parceria, com duração prevista de até cinco anos, seria o instrumento ideal para adquirir a tecnologia que a empresa brasileira precisava. Por outro lado,a parceira brasileira ajudou o grupo indiano no conhecimento do mercado,além de garantir o bom relacionamento com os clientes. A companhia indiana,por seu lado, contribuiu com metodologias, processos e sistemas de qualidade.No final de maio passado,os indianos anunciaram que estavam comprando a parte que a TBA possuía na TCS Brasil. Segundo comunicado da Tata, o grupo pagou US$ 33,4 milhões para ficar com 100% da empresa no Brasil. No mesmo documento o grupo afirma que os cinco anos de parceria garantiram que as duas partes alcançassem seus objetivos financeiros, mercadológicos e de conhecimento e deram à joint venture visibilidade e porte que outras empresas do mesmo segmento levaram décadas para obter. Hoje a TCS Brasil tem 1700 funcionários e clientes de grande porte, como ABN Amro, Equifax e Brasil Telecom, e foi a primeira empresa no Brasil a obter a certificação CMMi nível 5. Para provar que a união foi desfeita, mas a amizade per- manece, o comunicado lembra ainda que o Grupo TBA e TCS continuam juntos e cele- bram um acordo de cooperação operacional que fará com que entrem em conjunto nos clientes,oferecendo soluções amplas em toda a cadeia de produtos e serviços de tecno- logia da informação. Novamente capitalizada pela venda de um negócio, Cristina agora pretende fazer uma oferta pública de ações no Novo Mercado da Bolsa de Valores de São Paulo. Pode ser da B2Br (unidade que oferece soluções em TI) ou da True Access (divisão especializada em segurança de informações).

O desafio agora é trabalhar para colocar bem a empresa na Bovespa. Mas, mesmo com esse foco, ela admite que está aberta a qualquer outra experiência também. Porque é assim que Cristina Boner trabalha — o foco no negócio não tira a visão do todo. Aliás, ela acha até natural essa ida à bolsa, uma vez que muitas empresas importantes de tecnologia, como Positivo, Totvs, Datasul e Bematech, já foram para lá. Mas ela sabe que esse caminho tem normas e já se prepara para segui-las. A sua estratégia até o final do ano é adquirir empresas complementares para aumentar seus números de vendas e de oferta de serviços. Agora sua atenção está voltada para as telecomunicações,por isso a maior parte das aquisições que pretende fazer será entre empresas de TI nessa área. Com as aquisições, a meta de Cristina é apresentar sua TBA na Bovespa com um faturamento de cerca de US$ 400 milhões. O capital obtido com a venda de sua participação aos indianos também será usado na capacitação de seu pessoal e em questões de governança. Para isso ,a TBA já tem uma área de relações com investidores que atende a B2Br e a True Access. Há também uma parceria com a Fundação Getúlio Vargas para a geração de líderes empresariais. A fundação prepara um curso de dezoito meses de duração, com nível de MBA. Isso é necessário porque quanto maior o número de técnicos e de pessoal especializado, maior o valor da empresa no mercado.

Esse curso prepara quarenta gerentes do 3.º escalão para assumirem postos de 2.º escalão. “Eles tão sendo preparados para pensar, para correr riscos”,diz ela. Na primeira quinzena de junho, Cristina esteve nos Estados Unidos “prospectando possibilidades para a B2Br”. Essas viagens só são feitas quando as possibilidades de acordo são grandes, porque essa mulher loira, bonita, alegre, dinâmica, falante e audaciosa morre de medo de viajar de avião. Ao descer do avião, tudo volta ao normal,e lá nos Estados Unidos ouve os prováveis parceiros sem perder de vista a possibilidade de novos negócios. De volta ao Brasil, pretende passar mais tempo no sítio cuidando de sua plantação de mognos e providenciando o plantio das mudas de teka, árvore que conheceu graças aos amigos indianos. E pretende também dedicar um pouco mais de tempo à AME,associação de mulheres empresárias que reúne,segundo ela,o que há de melhor no empresariado feminino da capital.Além da troca de experiências entre elas, a associação faz também um trabalho social,providencia cursos de qualificação para as mulheres da periferia.Como Cristina não é de fixar metas modestas,seu objetivo é formar mil mulheres até o final do ano.Pelo que se conhece dela,tudo indica que esse número será ultrapassado.

Por Violeta Marien

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