Conheça a história de Cristina Boner, Cristina Palmaka, Márcia Nakahara e Thelma Bruzadin, líderes de empresas de TI, e saiba o que elas fizeram para chegar ao topo

Pense rápido… quantas mulheres à frente de empresas de TI você conhece? Certamente você deve ter se lembrado de três: Ginni Rometty, da IBM, Meg Whitman, da HP, e Marissa Mayer, do Yahoo. A lista realmente não é extensa, mas está ganhando reforço e outros nomes passam, aos poucos, a rechear uma área com presença e liderança predominantemente masculina. Está se tornando mais comum encontrar o toque feminino na presidência de empresas de TI mundo afora e agora também no Brasil.

Um dos exemplos é Marcia Nakahara, diretora-presidente da McAfee Brasil, que assumiu a posição em abril de 2014, momento em que a empresa iniciava sua consolidação no mercado com a marca Intel Security.

Formada em economia e em TI pela Fundação Bradesco, Márcia caiu de paraquedas na área. Nascida e criada em São Paulo, quando adolescente passava as férias no Paraná e em uma dessas viagens, sua mãe, que parou os estudos no Ensino Médio, decidiu fazer sua inscrição no curso de TI.

“Entre tantas outras graduações que têm mais mulheres, como turismo e secretariado, minha mãe elegeu TI porque disse que era uma carreira que cresceria”, lembra, assinalando que tudo o que construiu até hoje deve em parte ao seu talento e em parte à sua mãe.

Quando se formou, passou a atuar como programadora Cobol e diz que até hoje se precisar assume o desenvolvimento na linguagem. “Só não peguei o cartão perfurado por questão de seis meses”, brinca. Depois, foi para as áreas de implementação e suporte técnico, dominadas por homens.

Marcia, que completa 49 anos neste mês, ascendeu rapidamente. “Tive excelente gestores que me guiaram e me deram muitas oportunidades, que abracei sem receio. Se você tem saúde, não tem de ter medo de nada. A vida dá muitas oportunidades. Basta ir atrás e fazer o melhor”, assinala. Ela conta que chegou à liderança da McAfee graças a outras experiências em diversas áreas. “Hoje, dificilmente alguém me passa a perna. Discuto de igual para igual”, comenta.

Por ter chegado ao topo cedo, Marcia revela que um de seus principais desafios no começo foi a gestão de pessoas. “O que motiva um, não necessariamente motiva o outro. A reação de cada um não é a mesma. Entender isso na liderança é uma das vantagens da mulher, que traz ao mesmo tempo força e sensibilidade”, acredita, acrescentando que seu estilo de líder inclui características como comunicação, transparência e honestidade.

Mãe de um menino de 22 anos estudante de medicina, Marcia brinca que tem 71 filhos, um biológico e outros 70 profissionais liderados diretamente por ela. Ela reconhece que muitas vezes em razão da agenda atribulada, repleta de reuniões e viagens, não conseguiu marcar presença em todos os eventos escolares do filho. “Quando ele tinha 12 anos, perguntei se ele não sentia falta disso. Sua resposta foi não e completou dizendo que achava ‘muito legal’ ter uma mãe importante que viajava tanto como eu. Eu e meu ex-marido passamos uma educação muito positiva para ele e ele encara a vida dessa forma também”, observa.

Entre a cruz e a espada
No livro ‘Faça Acontecer’, de Sheryl Sandberg, COO do Facebook, ela diz que o momento mais crítico na vida mulher é quando ela decide se quer ser mãe ou se vai dedicar-se à profissão em tempo integral. Esse é, de fato, um divisor de águas na história de uma mulher, afinal grande parte da responsabilidade recaí nos ombros das mães.

Thelma Bruzadin, gerente-geral da Hyland Software Brasil, tem três filhas, nunca tinha passado por esse dilema, até ter sido convidada para escrever um livro nos Estados Unidos como parte de seu trabalho para a IBM. Lá, ela deveria permanecer por dois meses.

Na época, sua filha mais velha tinha um ano de idade. “Aceitei o desafio em um tempo no qual a comunicação era limitada, não tinha internet, telefone era caro… Me comunicava pouco com todos. Quando voltei, minha filha não me reconheceu. Aquilo me fez muito mal, entrei em crise e pensei em deixar o trabalho e me dedicar à família”, lembra.

Foi quando um colega de trabalho a aconselhou: “se fortaleça com isso. Tire uns dias para sua família e volte com força total”. “Acredito que toda mãe que fica fora carrega essa culpa. Mas voltei fortalecida. Retomei o trabalho e nunca mais pensei em largar tudo”, diz.

Ainda que tenha sido muito difícil para Thelma, ela conta que o trabalho foi extremamente bem-sucedido e parabenizado por toda a empresa. Profissionalmente foi um marco importante, relata. O acontecimento abriu portas em sua carreira e a fez crescer.

Thelma reconhece que por diversas vezes em razão da sua rotina assumiu um afastamento do dia a dia das filhas, mas garante que isso não prejudicou a educação ou mesmo o relacionamento com elas. “O importante não é quantidade e sim qualidade. Trabalho muito, mas todo o meu fim de semana é dedicado a elas”, conta.

Igualdade de gênero
Nascida em Pirangi, no interior de São Paulo, Thelma interessou-se por tecnologia da informação aos 17 anos. “Quando adolescente, morei seis meses nos Estados Unidos e lá tive contato com TI. Ao voltar para o Brasil e decidi que queria estudar o tema. Foi um choque para meu pai”, relata a executiva, que formou-se em Análise de Sistemas em Processamento de Dados pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e tem MBA em Gestão Estratégica pela USP.

Ela conta que em sua turma era uma das poucas mulheres e mesmo depois de formada observada a ausência feminina na área. Na Itautec, onde trabalhou por muitos anos, o cenário era diferente, já que havia muitas mulheres e grande parte delas ocupava posições de destaque.

Para Thelma, ainda que hoje o mercado de TI tenha mais mulheres, há uma certa resistência. “Nunca sofri preconceito por ser mulher, mas em todas as reuniões em diversas empresas que trabalhei eu era a única mulher”, relata. “Tenho meu lado feminino, mas sou uma profissional como um homem seria”, assinala.

À frente da Hyland Brasil há um ano e três meses, Thelma afirma ter chegado onde chegou porque ama o que faz e, acima de tudo, está muito voltada para resultados. Não se trata de uma questão de sorte e, sim, competência. “Converso muito com minha equipe e sei que sozinhos não vamos a lugar nenhum. Um time, sim. Não quero os que tiram nota dez a vida, toda, quero que tenham vontade de fazer e acontecer”, detalha.

Abrir mão da vida pessoal
Assim como Márcia e Thelma, Cristina Boner, 53 anos, presidente do conselho de administração da Globalweb Corp, também abriu mão de festas e passeios para construir, tijolo a tijolo, seu império de oito negócios, que emprega mais de 2 mil funcionários e em 2014 faturou R$ 481 milhões, 20% a mais do que no ano anterior.

“Acabei sendo a Rainha Elizabeth [do Reino Unido], abrindo mão da vida pessoal em prol da estrutura da empresa. É muito raro ter um momento para mim. Me dedico muitas vezes 14 horas por dia à companhia”, confessa. Mesmo hoje, depois de ter conquistado uma carreira bem-sucedida, Cristina afirma que por diversas vezes pensa em jogar tudo para o alto e seguir outros rumos.  “Mas sou muito religiosa e entrego nas mãos de Deus.”

Arrependimento? Cristina diz que não faria diferente em sua vida profissional. “Quando optamos por construir um império, temos de abrir mão de tudo. Sou superfeliz. Larguei tudo por muitos anos, mas conforme os negócios cresciam contratava mais gente para me ajudar com as tarefas pessoais”, relata. Atualmente, consegue até escapar para sua casa em Angra ou para fazer caminhadas, uma de suas atividades preferidas.

Nascida em Ribeirão Preto, foi morar Brasília aos 15 anos. Três anos depois passou no vestibular de arquitetura, mas descobriu que não era sua ‘praia’ e ingressou no curso de Processamos de Dados na PUC. Sua rotina era insana: tinha dois empregos, estudava à noite e tinha acabado de ter sua primeira filha, aos 19 anos. Logo veio a segunda filha. “Foi uma fase complicada, porque muitas vezes rodava processo de madruga, dormia de duas a três horas e começava tudo de novo. Mas valeu a pena”, conta.

Em 1992, Cristina abriu sua primeira empresa, a TBA, que revendia softwares da Microsoft. “Fui a primeira companhia a representar a Microsoft no Brasil.” Como ela conseguiu o feito? Cristina soube que o fundador da gigante de software estava em Brasília, mas não conseguiu nenhuma brecha em sua agenda para uma reunião.

Então, ela lembrou que um amigo tinha um avião com que sobrevoava praias com anúncios. Ela pediu que ele pintasse a maior faixa disponível, de 150 metros, com a mensagem ‘Welcome Bill Gates. TBA’. O avião sobrevoou o prédio em que estava Gates e minutos depois Cristina foi convidada a encontrá-lo no dia seguinte em São Paulo. Algum tempo depois, sua ousadia também fez com que ela trouxesse para o Brasil a primeira fábrica de software indiana.

Cristina afirma que por atuar em uma área em que o comprador de tecnologia quase sempre é homem, sentiu em algumas ocasiões desvantagem frente aos concorrentes, não pelo aspecto técnico, mas por não ter abertura para estabelecer relacionamento próximo com os profissionais com os quais prospectava. “Procurava compensar isso atendendo melhor, mostrando que sou séria e comprometida”, explica. “Nasci preparada para guerra, não me abalo. Quanto maior o problema, mais fria sou”, completa.

Em qualquer conversa de cinco minutos, Cristina cativa por seu senso de humor e simplicidade, mas no dia a dia conta que seu estilo de liderança é bastante exigente e extrai o máximo de cada um.

Hoje com três filhas, quatro netos e quatro cachorros, Cristina levou todas as suas filhas para trabalhar no Grupo, cada uma em uma área. “Bruna [a mais nova] vai ser minha sucessora”, adianta. A presença feminina é, aliás, algo muito incentivado por Cristina na Globalweb. Hoje, 46% dos funcionários da companhia são mulheres. “Também tenho muitas líderes mulher aqui”, afirma e emenda “quero contratar mais”.

Liderar pelo exemplo
Cristina Palmaka, 46 anos, presidente da SAP Brasil, é uma daquelas mulheres de pulso firme, que fala com segurança e é admirada por qualquer um que trabalha ao seu lado. Graduada em Ciências Contábeis pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), com pós-graduação e MBA pela Fundação Getúlio Vargas e extensão pela Universidade do Texas, Cris, como é chamada pelos mais próximos, ingressou no mercado de trabalho muito jovem, como estagiária da Philips. Depois foi para a Compaq-HP, Microsoft e em outubro de 2013passou a ocupar principal cadeira na SAP, a primeira mulher em 20 anos da história da fabricante alemã em solo nacional.

Aos 24 anos foi gestora pela primeira vez. “Sou muito séria e disciplinada. Gosto de montar times, por isso me destaquei cedo. Gosto de ver as pessoas crescerem e para mim o mais importante é deixar um legado”, define-se.

Cris conta que nunca existiu discriminação no ambiente corporativo pelo fato de ser mulher e ter conquistado posições de destaque tão cedo. “Sempre trabalhei em empresas muito abertas com grande presença feminina na liderança. Na SAP, por exemplo, temos 36% de funcionárias mulheres, sendo 26% delas líderes”, contabiliza. Para ela, a diferença de gênero existe no mercado de forma geral, no entanto, ela acredita que o talento sempre vence.

Casada há 17 anos e com uma filha de nove anos, Cris relata que assim como as demais executivas também teve de tomar decisões profissionais pautadas na vida pessoal. “Tive a oportunidade de morar fora do País muitas vezes. Quando Catarina [sua filha] tinha quatro meses recebi uma proposta dessas, mas abri mão.”

Adepta de corridas desde 2000, Cris encontrou no esporte sua terapia. “É minha válvula de escape. Corro de três a quatro vezes na semana”, revela. Seu fim de semana é um contraponto à sua rotina. Sábado e domingo são dias para curtir com a família e ficar em casa.

Afinal, como alcançar o topo?
Cristina Boner e Cristina Palmaka, Marcia e Thelma não chegaram onde estão à toa. Conquistaram o cargo máximo em suas empresas após muito trabalho e dedicação. Para as mulheres, que assim como elas, desejam o topo, elas dão o caminho das pedras. Anote aí!

“Nunca desista por mais difícil que seja. Além disso, dê o seu melhor sempre, e esteja disposta a aprender para que as oportunidades apareçam”, aconselha Márcia. Outra recomendação da executiva é buscar ser um espelho para as pessoas, dar o exemplo.

Para Thelma, quanto mais o mercado mostra o que a mulher é capaz, ela própria se anima e se incentiva a galgar seu espaço. “Vá e faça. Não tenha medo”, incentiva. Cristina, da Globalweb, acredita que para crescer em qualquer área é preciso mostrar segurança, firmeza, ser obstinada e manter-se sempre informada. “Basta querer”, simplifica.

Cris, da SAP, lista três passos para ascender na vida profissional: estar sempre atualizada independentemente do segmento e buscar soluções fora da caixa; entender qual é sua melhor competência e trabalhar para fortalecê-la; e definir objetivos claros. “Minha jornada exigiu muita dedicação. Escolha o caminho que você acredita e faça as apostas corretas”, finaliza.

Fonte: IT Forum 365

 

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